O Relógio Falso

Este texto foi escrito por um cliente e amigo e achei muito bom, por isso estou compartilhanto com meus amigos e clientes "ipisis litteris":

O Relógio Falso


"Herdamos as coisas mais esquisitas de nossos pais. Às vezes nem nos damos por conta, mas com o passar do tempo, vamos pegando as mesmas manias, adotando padrões introjetados de comportamento por uma fagulha genetica e acabamos por copiá-los até mesmo nas condutas que mais criticávamos quando éramos adolescentes. Pois bem, eu acabei ficando com o mesmo gosto do meu pai por relógios. Não conseguia entender quando ele parava na frente das relojoarias para paquerar as peças, ou como ele mesmo gostava de dizer: “a jóia do homem”. Ele não chegava a ser um sujeito vaidoso, longe disso, sua plenitude se dava nas coisas simples da vida, como dedicar seu tempo para leituras ou pescarias, mas esse vício pelas esculturas com ponteiros, ele parecia não conseguir se livrar.
Fui ficando mais velho e começando a entender a representatividade do seu facínio pelas marcas que carregava no pulso. Sempre que ele dava um plantão a mais e sobrava uma grana, vinha logo me cconvidando entusiasmado: “Meu filho, vamos comprar mais um relógio? “e lá íamos juntos escolher logo a peça… Logo não, longe disso, ele estudava obsessivamente cada marca e acabava por saber mais que os próprios vendedores sobre a tecnologia, os componentes e até mesmo a história dos criadores. Desde que os suiços emanciparam a convenção das horas e tornaram a pontualidade uma virtude, carregar um mediador cronológico no pulso se tornara referência universal. As premissas dele eram as seguintes: sempre automáticos, jamais a corda, nunca com pilhas ( ou a quartz – termo que eu demorei 2 anos para enteder por vergonha de perguntar o que era), mas sobretudo, SEMPRE ORIGINAL, jamais use um relógio falso, dizia ele. Quem quer aparentar o que não é, não é digno de confiança, pois enganar visualmente o entorno torna o cidadão, no mínimo, suspeito.
Eu não conseguia entender como um homem evoluído, que vinha de família paupérrima tinha coragem de sacrificar horas preciosas de sono e tostões ganhados com suor em algo tão sem sentido, que servia mera a simplesmente para “controlar as horas”. Bem, passei a prestar atenção nas atitudes desse cara que eu tanto admirava e compreender o porquê de sua fixação. Para olhos leigos, uma máquina que move ponteiros é apenas uma referência sobre o passar dos minutos, mas para quem gosta de interpretar as pessoas que ama e tem a empatia devida, é possível dar um mergulho a vida alheia e desvendar motrizes para gostos, manias ou até mesmo vícios. Meu pai não estava lá a exibir uma jóia no pulso, pois para isso, havia outros ornamentos bem mais caros e esteticamente tão belos quanto. Para ele, o tempo valia OURO e, assim ele gostava de sentir quando materializava sua obsessão pelo controle do tempo em seu pulso esquerdo. Um tempo que ele imaginara não ter muito, e por isso, queria sentir em suas mãos, ou pelo menos perto delas. Tinha a intenção inconsciente de congelar o tempo quando deixasse de sacudir a caixa e sentir um passar suave dos momentos quando ele os ajustava novamente… Ahhh, e como ele curtia ajustar aqueles ponteiros, lhe brilhavam os olhos só de movimentar os pingentes . Chegou ao ponto de comprar relógios com máquinas desnudas, para que pudesse observar a construçao do tempo, ou melhor, enxegar a geraçao do mesmo, como se de alguma maneira ele pudesse desmontar os momentos, inverter o sentido do tic tac, reverter o quantum cronológico e, talvez, viajar em sua relatividade.
Jamais Réplica, dizia ele, sempre que me mostrava seu material novo da coleção. E só depois de longos anos fui captar a mensagem subliminar da sentença: “quem compra coisa falsa, quer ser o que não é, ou pelo menos, aparentar ser! Como na vida, quem usa algo de mentira para impressionar outrem, de mentira é. Meu pai almejava sempre marcas mais nobres, entretanto, comprava modelos que coubessem em seu orçamento, pois não atingira o ponto financeiro para fazer jus a investimentos vultosos, entretanto, vestia o que lhe era possível dentro de seus limites, era autêntico e genuino, exatamente como seu caráter e sua moral: verdadeira, honesta e sem réplicas. 
Eu fiquei com o mesmo problema do meu velho: apaixonado pelos relógios. Sempre que posso, vou direto na loja comprar mais um, não para fazer coleção, mas por querer perceber o tempo passar de maneiras diferentes, ou talvez para deixar alguns parados e assim sentir que meu tempo não está passando em alguma dimensão. Imaginar que aqueles relógios que ficam estagnados na minha casa, seguram momentos ímpares e memoráveis da minha existência. Originalidade virou meu lema também, pois a vida é muito mais interessante quando aparentamos menos que valemos. Pois relógio falso, réplica de roupa, apenas alocam as pessoas num mundo de mentira, de aparências, que levam o sujeito a um grande vazio que inicia na 25 de março e acaba no primeiro de abril. Pois não é do relógio que dependemos para viver bem e sim, do tempo que ele controla. Não é pela roupa que somos admirados e sim pelo que ela veste. Como bem disse Albert Einstein ao ser criticado em suas vestes pela esposa quando da visita de um Cônsul até sua casa: “se ele veio aqui para me ver, cá estou… Se quiser ver minhas roupas, levo ele até meu armário!"


Eduardo Sacomori Ferraz