Algumas marcas suíças possuem o selo de excelência denominado “Poiçon de Genève”, ou, selo de Genebra. Mas o que significa possuir esta distinção e o que é o selo de Genebra? Quais os critérios e a metodologia aplicada para concessão do selo? 

Selo de GenebraO Selo de Genebra (Poinçon de Genève), é uma das mais prestigiosas certificações da alta relojoaria.

História

Desde o século XV que Genebra é um reconhecido centro artesanal, sua ourivesaria e joalheria possuía grande prestígio em toda a Europa. A partir do século XVI a cidade passa a desenvolver grande especialização na relojoaria. Nesta época Genebra era uma república independente. Após as reformas de João Calvino em 1541, iniciou na França um movimento de perseguição a seus seguidores, como consequência, muitos Calvinistas migraram para os cantões suíços que lhes abriram suas portas e permitiam o exercício de sua religião. Estes emigrantes trazem para Genebra novos conceitos e técnicas nas áreas bancária, artística e manufatureira, resultando em ainda mais prosperidade para cidade. Com o advindo de uma lei de Calvino que proibiu os artesãos seguidores da religião de produzirem artefatos que fossem manifestações de luxo, como joias e objetos decorativos, estes passaram a se dedicar a produção de peças do mecanismo dos relógios enquanto os artesãos genebrinos dedicaram-se aos elementos estéticos. Rapidamente Genebra se converte como capital da alta relojoaria e em 1601 surge a primeira corporação de relojoeiros da história “Maîtrise des horloger de Genève”, ou, Grêmio dos relojoeiros de Genebra. Em 1760 com apenas 25.000 habitantes a cidade tem mais de 5.000 pessoas trabalhando na indústria relojoeira, e no início dos anos 1800 quase metade da população trabalha direta ou indiretamente para a relojoaria, produzindo cerca de 100.000 relógios por ano, tamanha concentração de talentos promoveu uma busca sem igual por um alto nível de qualidade e inovação.

Na metade do século XIX a fama e o reconhecimento de Genebra como berço dos melhores relógios do mundo começa a sofrer com o fenômeno da falsificação, fabricantes de fora da cidade produzem relógios como se fossem genebrinos, também, alguns fabricantes menos idôneos começam a produzir relógios com baixa qualidade. A necessidade de proteger a denominação “Genève”, fez com que em 1886 fosse criado por lei o selo de Genebra que garantia procedência e qualidade dos relógios produzidos na cidade. Os fabricantes não eram, e não são até hoje, obrigados a submeter seus relógios ao conselho do selo, mas o fabricante que o fazia garantia a seus clientes que o relógio havia sido produzido de acordo com os padrões genebrinos de qualidade. O conselho muda seus critérios de avaliação de acordo com a evolução tecnológica da relojoaria. Desde 1957 não haviam sido geradas grandes modificações para o selo, apenas uma pequena alteração em 1994, então em 2011 ocorreu a última grande mudança nos critérios de aplicação da distinção, porém isso ocorreu poucos anos após a saída de um de seus maiores defensores, a Patek Philippe, que justamente estava inconformada com a estagnação dos critérios de avaliação e optou por criar seu próprio selo de qualidade. 

O que é a “Poiçon de Genève”?

O selo é um carimbo com as armas da cidade de Genebra aplicado no movimento e na caixa dos relógios que são aprovados pelo conselho. Para concessão do selo pelo conselho o relógio deve ser produzido em Genebra, seguir rigorosos critérios de avaliação quanto a forma de fabricação, esta inspecionada uma vez por mês por membros da instituição, bem como de qualidade e especificações para o movimento, caixa, funções e conjunto. Até 2009 a avaliação dos critérios ficava a cargo da Escola Relojoaria de Genebra, passando então a ser reponsabilidade da TIMELAB, o laboratório de relojoaria e microtécnica de Genebra, que é uma fundação de direito privado controlada pelo estado. O “bureau du Poiçon de Genève” é composto por 9 membros: 6 representantes do Estado de Genebra e 3 representantes da indústria relojoeira de Genebra.

Um relógio possuir o selo de Genebra significa que este e seu respectivo fabricante atenderam a todos os rigorosos critérios de fabricação tradicionais e técnicos da indústria de relojoaria genebrina, e que todas suas especificações técnicas estão realmente atestadas.

Esmeiro na qualidade

Perfeição em cada detalhe do maquinário ao acabamento são exigências para concessão do selo.

Metodologia

Para a obtenção da “Poiçon de Genève” o fabricante deve primeiramente entrar com uma solicitação no Departamento do Selo de Genebra. A segunda etapa é a aferição de cada componente do maquinário do relógio e de todas as demais peças do relógio, bem como do dossiê do projeto, com a aprovação nesta etapa, já pode ser feita a gravação do selo. O terceiro passo é realizado com o relógio montado e avalia além do cumprimento dos procedimentos anteriores, as especificações técnicas do fabricante e o correto funcionamento das complicações do relógio. Há ainda o controle periódico nas instalações do fabricante, são no mínimo 12 visitas por ano que são feitas por um representante juramentado do departamento. Todo relógio certificado com o selo deve ostentar o selo na caixa e no movimento, bem como ser vendido com o certificado numerado do Selo de Genebra. No maquinário do relógio o selo deve estar gravado na mesma peça que leva o serial do maquinário, e quando este possuir algum mecanismo adicional o selo deve ser gravado na placa do movimento ou em uma das pontes.

Critérios

O primeiro critério para um relógio obter o selo é ser montado, ter o ajuste e incorporação do movimento e controles de suas funções realizadas em território genebrino;

Todas as peças planas do movimento do relógio devem ter acabamento escovado na face superior, embora esse escovado também seja decorativo, sua principal função é eliminar micro partículas de metal e imperfeições da fabricação que possam bloquear a rotação do trem de rodas, a lateral das peças deve ter acabamento jateado, as quinas devem ser chanfradas e a parte inferior polida;

Todas as engrenagens devem ter as quinas dos dentes chanfradas e uma moldura no entorno dos orifícios, isso evita que se depositem aí micro partículas de metal originadas do desgaste natural do mecanismo, como são peças com movimento constante, esse depósito de partículas pode comprometer a qualidade do funcionamento;

Todos os parafusos devem ter sua cabeça polida ou com escovado circular e devem ter as quinas da fenda chanfrada, bem como a borda da cabeça também deve ser chanfrada, a ponta e a lateral da cabeça do parafuso e devem ser polidas. O polimento protege a peça conta oxidação, também, o parafuso pode ser colorido desde que utilizando técnicas permitidas pelo conselho;

Molas de fio não são permitidas e as demais molas devem possuir os cantos chanfrados;

Os rubis da máquina devem ter uma borda no entorno do orifício e este deve ser polido, desta forma a gota de óleo ali depositada fique contida facilitando a rotação das engrenagens por um prazo maior e assim necessitando menos manutenção;

Não é permitido nenhum componente em polímero;

Peças que servem para unir o movimento a caixa do relógio como aro, parafusos e bridas devem atender aos mesmos critérios de acabamento, como cantos chanfrados, faces polidas ou escovadas, etc;

Todos demais componentes que não possuem um critério específico devem ser acabados e produzidos conforme o projeto apresentado pelo fabricante incluindo a caixa, coroa, botões, bezel e outros;

A estética do relógio montado é avaliada conforme o projeto do relógio e deve atender aos mesmos princípios de qualidade, como polimentos homogêneos, simetria dos acabamentos;

Com o relógio montado passam a ser avaliados os critérios para o conjunto, todas as especificações garantidas pelo fabricante são testadas nessa etapa, bem como alguns especificações obrigatórias pela rega do selo;

A primeira avaliação nesta etapa é a da precisão, um relógio que ostenta o selo de Genebra não pode possuir variação superior a um minuto em um intervalo de sete dias;

A segunda avaliação é do isolamento hermético da caixa, ou seja, resistência a água, o mínimo que o relógio deve suportar de pressão são 3 bar, e de pressão negativa 0.5 bar. A umidade é principal inimigo do relógio, por essa razão o mesmo deve possuir hermeticidade;

A reserva de marcha é o terceiro critério avaliado, e deve ser de no mínimo o tempo estipulado pelo fabricante;

A última avaliação refere-se as complicações do relógio, o funcionamento de cada uma delas é aferido e deve atender no mínimo as especificações do fabricante.

Quais são as marcas que possuem o selo de Genebra?

As marcas que submetem com maior frequência seus relógios ao conselho e que possuem o selo são: Cartier, Chopard, Roger Dubuis, Vacheron & Constantin e Ateliers de Mônaco, embora alguns outros pequenos fabricantes submetam em quantidade inexpressiva seus relógios também. A marca que mantém a maior quantidade de modelos com o selo é a Vacheron & Constantin, cerca de 70% de seus relógios. O custo para submeter um relógio ao conselho é de 100 francos suíços.